Esses dias eu fiz um comentário num vídeo no Youtube. No comentário (que nem era nada polêmico), eu dizia "nós indígenas" (nem me lembro ao certo sobre o que).
Uma pessoa comentou embaixo "Nós indígenas = Martinelli".
Sim, meu sobrenome é Martinelli. E o do Ailton Krenak é Lacerda. E o da Sônia Guajajara é Souza. E o da Francy Baniwa é Bittercourt. Nós não inventamos essa história de sobrenome e, portanto, não temos "sobrenome".
Eu não gosto de expor a história da minha família online, mas a história do porquê de eu ter só o "Martinelli" no meu registro, sem o "Silva" que foi dado à minha linhagem Puri e sem o "Carneiro", que era alcunha da minha família Puri antes de sermos registrados formalmente como "Silva", não é uma história bonita. Nada bonita. Já perdoei o responsável por essa violação do meu direito ao registro e identidade, mas foi uma injustiça imensa cometida contra minha família Puri e seu direito à preservação da memória.
Situações como essa só mostram o quanto os não-indígenas estão dispostos a serem completamente arbitrários na hora de aplicar o seu "escrutínio étnico" sobre nós, e o fazem da forma que mais for beneficiar o seu domínio sobre o discurso em qualquer circunstância. A mesma pessoa que nega o seu pertencimento hoje, amanhã vai te tratar como um "selvagem" pra justificar te agredir, menosprezar, ridicularizar e excluir.
É um exemplo pequeno, mas achei bem sintomático da forma como somos tratadas quando frequentamos esses espaços "limiares" e principalmente na internet, onde tudo é sobre "parecer" e quase nunca sobre SER.
Mais uma vez, eles dizem que não somos quem somos porque nós não temos o que eles roubaram da gente e não querem devolver.




Alexandra Moreira
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