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Aprendi com a minha mãe a importância de preservar as memórias da família. Ela diz que, contando histórias, até mesmo pessoas que já se foram permanecem de alguma forma vivas e presentes. Minha vó, mãe dela, morreu quando eu era criança, mas ouço tanto dela que nem parece que se foi. Ela até aparece nos sonhos de familiares pra dar bronca ou avisar de algo.
Por causa desse costume, eu conheço bastante meu bisavô Manuel. Sei que ele era muito apaixonado pela esposa e cuidou de todos os filhos do primeiro casamento dela. Ele trabalhava com ela nas fazendas de café, até vir pra São Paulo e começar a colorir fotografias. Dizem que ele era meio bravo, que já foi alcoólatra, mas parou de beber quando virou evangélico. Nem TV ele assistia. Já vi fotos dele e penso que ele era bem bonitão (e míope!).
Eu achei a certidão de casamento dele, então descobri que ele era filho de José e Josefa e nasceu em 1909. Ele se casou no cartório quando a minha vó já tinha 19 anos. Foi registrado numa cidade do interior que só surgiu quando ele já tinha mais de 20 anos, então penso que ele ficou muitos anos sem documento.
Quando bem velhinho, ele e a esposa ficaram internados no mesmo hospital, mas nenhum sabia do outro. Quando ele morreu, minha bisavó sentiu e foi também, tamanho amor que sentiam um pelo outro.
Certamente, muitas memórias se perderam, e todo dia lamento que minha vó não está aqui pra me contar mais. Mas me sinto bastante privilegiado de saber tanta coisa.