Falar de povos originários no tempo presente implica deslocá-los de uma narrativa de passado para reconhecê-los como sujeitos históricos e políticos contemporâneos. Antes da constituição do Brasil, o território já era habitado por uma pluralidade de povos com sistemas próprios de organização social, regimes de conhecimento, línguas e territorialidades. No conjunto das Américas — também referido por diversos povos como Iby Ayala — estima-se a existência (histórica e contemporânea) de mais de mil línguas indígenas, evidenciando uma diversidade epistemológica e cosmopolítica que desafia modelos homogeneizantes. O processo colonial operou por meio de violência material e simbólica, promovendo expropriações territoriais e epistemicídios; ainda assim, tais dinâmicas não foram suficientes para eliminar a continuidade e a rearticulação desses povos.
A decolonização, nesse sentido, ultrapassa sua formulação enquanto categoria analítica no âmbito da Antropologia e da Sociologia, configurando-se como prática política e epistêmica. Trata-se de tensionar a hegemonia de matrizes eurocêntricas de produção de conhecimento e de reconhecer a legitimidade de outras ontologias e epistemologias. A reflexão proposta por Ailton Krenak, por exemplo, contribui para a crítica à cisão moderna entre humanidade e natureza, propondo uma compreensão relacional da existência que reconfigura os fundamentos do pensamento social contemporâneo.
No plano político-jurídico e territorial, a retomada emerge como estratégia central. Longe de se reduzir a uma disputa fundiária, ela constitui um processo de reterritorialização que visa restabelecer vínculos ontológicos, culturais e históricos entre povos e seus territórios. Nessa perspectiva, o território não é concebido como mercadoria ou recurso, mas como dimensão constitutiva da vida coletiva, implicando memória, identidade e reprodução sociocultural.
Por sua vez, a reconexão articula-se tanto em âmbito intra quanto intercultural. Entre os próprios povos originários, manifesta-se na revitalização de línguas, práticas rituais e sistemas de cuidado. Para as sociedades não indígenas, coloca-se como possibilidade de revisão crítica de paradigmas de desenvolvimento, consumo e relação com o meio ambiente. Importa, contudo, evitar abordagens romantizantes, reconhecendo tais processos em sua complexidade e historicidade.
Assim, decolonização, retomada e reconexão configuram-se como processos interdependentes que não dizem respeito exclusivamente aos povos originários, mas interpelam o conjunto da sociedade. Em última instância, colocam em questão os fundamentos do projeto moderno-colonial e abrem espaço para a construção de horizontes plurais, baseados na coexistência de múltiplos modos de vida e de produção de conhecimento.
Referências:
Ailton Krenak. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Aníbal Quijano. “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”.
Walter Mignolo. A ideia de América Latina.
Catherine Walsh. Interculturalidad, Estado, sociedad.
Boaventura de Sousa Santos. Epistemologias do Sul.
Davi Kopenawa & Bruce Albert. A queda do céu.
UNESCO. Atlas of the World’s Languages in Danger.
IBGE. Censo Demográfico 2022: Povos Indígenas.