Do Toque do berimbau à voz das ruas: a capuêra como resistência cultural e participação política

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Em 18 outubro de 2026, mobilizações de capoeiristas reacendem o debate sobre democracia, direitos sociais e o papel da cultura popular na construção de uma sociedade mais justa.

O som do berimbau atravessa gerações, ocupa territórios e carrega histórias de resistência. Na capoeira, o corpo fala, o canto preserva a memória e a roda ensina que ninguém joga sozinho. Mas a capoeira também ultrapassa os limites da roda: historicamente ligada à resistência negra, ela representa uma importante expressão da luta por liberdade, identidade e reconhecimento cultural.

Em 18 de outubro de 2026, essa dimensão política ganha visibilidade com mobilizações de capoeiristas que, segundo informações divulgadas sobre os atos, reuniram coletivos em mais de 60 cidades brasileiras e também no exterior. Movimentos como o Capoeiras pela Democracia e o Capoeiras com Lula participaram de articulações que levaram rodas, berimbaus e manifestações a espaços públicos.

Mais do que uma expressão artística, essas iniciativas demonstram como a cultura popular pode se tornar um espaço de participação cidadã, diálogo e reivindicação de direitos.

A rua também é lugar de cultura e cidadania

Praças, ruas, terminais e outros espaços públicos tornam-se pontos de encontro entre cultura e participação política. Em São Paulo, Brasília, Salvador, na Ilha de Itaparica e em Vitória, as mobilizações relatadas mostram como a capoeira pode ser utilizada para expressar posicionamentos e ampliar debates sobre os rumos do país.

Entre as pautas apresentadas estão a defesa da democracia e da soberania nacional, o fim da escala de trabalho 6x1, o combate ao racismo, à misoginia, à homofobia e à intolerância religiosa, além da valorização das culturas afro-brasileiras e da proteção das comunidades tradicionais.

A presença de mestres, mestras, professores, estudantes e praticantes nesses espaços evidencia que a cultura não está isolada da realidade social. Ela se relaciona com as condições de vida, o acesso a direitos, a valorização das identidades e a possibilidade de diferentes grupos participarem das decisões que afetam a sociedade.

Isso não significa que todos os capoeiristas tenham as mesmas posições políticas. A comunidade é diversa, e cada pessoa tem o direito de construir suas próprias opiniões. O importante é reconhecer a legitimidade da participação cultural no debate público e o direito à manifestação democrática.

Uma história de resistência que atravessa gerações

Para compreender a força dessas mobilizações, é necessário reconhecer a trajetória histórica da capoeira.

Desenvolvida no Brasil a partir de matrizes culturais africanas, a capoeira está profundamente ligada à resistência da população negra diante da escravidão, da violência e da repressão. Ao longo do tempo, a prática enfrentou perseguições e preconceitos, mas permaneceu viva por meio dos conhecimentos transmitidos entre gerações.

Em 2008, a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira foram reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em 2014, a Roda de Capoeira recebeu também o reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Esses reconhecimentos valorizam não apenas os movimentos e a musicalidade, mas também os saberes, os rituais, a oralidade e o papel dos mestres e das mestras na continuidade dessa tradição.

Preservar a capoeira significa, portanto, valorizar as pessoas que mantêm essa manifestação viva, reconhecer sua história e garantir que as novas gerações tenham acesso a esse patrimônio cultural.

Povos indígenas e capoeira: por que precisamos falar sobre essa história?

Ao falar sobre a história da capoeira e das manifestações culturais brasileiras, também precisamos fazer uma pergunta: onde estão os povos indígenas nas narrativas que contamos sobre a formação cultural do Brasil?

A capoeira tem suas raízes históricas profundamente ligadas às matrizes africanas e à resistência da população negra. Essa centralidade precisa ser reconhecida e respeitada. Ao mesmo tempo, ampliar o debate sobre a história brasileira exige olhar para as trajetórias dos povos indígenas, que também resistiram à colonização, defenderam seus territórios e preservaram seus conhecimentos, línguas, práticas corporais e formas próprias de organização comunitária.

Indígenas e africanos escravizados e seus descendentes compartilharam territórios e experiências históricas em diferentes regiões do Brasil. Essas relações ocorreram em contextos diversos, marcados tanto pela violência colonial quanto por encontros, trocas e formas de resistência. No entanto, não devemos transformar essas aproximações em afirmações de origem sem evidências históricas.

Reconhecer essa complexidade é fundamental para evitar generalizações e compreender que cada povo possui sua própria trajetória, seus conhecimentos e suas formas de resistência.

A necessidade de falar sobre os povos indígenas na história da capoeira não significa atribuir a eles uma origem que não esteja comprovada. Significa questionar os silêncios das narrativas tradicionais, incentivar pesquisas históricas e abrir espaço para que pesquisadores, mestres, mestras e representantes dos povos originários contribuam com suas próprias perspectivas.

 

Fotos: Mariana  do Grupo de Capoeira Angola Africanamente  e do instagram @capoeirascomlula

Instagra: @mari_capuangola

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