Soberania Digital Indígena e o site Etnias, por Karuãn Tataenday

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Nesta conversa, Karuãn compartilha sua complexa trajetória de vida e detalha a criação do Etnias, uma iniciativa que nasceu de vivências pessoais e comunitárias, sonhos e espiritualidade, e que hoje se consolida como uma rede social e uma empresa de tecnologia inteiramente pensada e gerida por indígenas





Por Iakurutu Potiguara

 

Parte 1: Território e memória às sombras da colonização

Iakurutu Potiguara: Para começarmos, gostaria que você se apresentasse e falasse sobre a sua trajetória pessoal e a sua origem.

Karuãn: Eu me chamo Karuãn, nasci e fui criado no Rio Acará-Mirim, em um território tradicional que ainda contava com as últimas parteiras da região. O contexto geral era o município de Tomé-Açu, no Pará. Ali existiam muitos povos que, originalmente, não se dividiam ou se chamavam pelos nomes de "etnias" que conhecemos hoje. Essa divisão por etnias não é nossa, nunca foi; são informações dadas e categorizadas pelo colonizador. Quando você aceita o rótulo de "eu sou da etnia tal", você está, de certa forma, se colocando como um corpo indígena colonizado.

Minhas memórias de infância são marcadas pela visão da minha avó correndo para nos tirar de perto do rio, conversando com outros grupos indígenas e trocando materiais e alimentos com famílias inteiras para evitar conflitos. Convivi com muitos povos, mas já nasci em um contexto impactado pela urbanização. Vi o primeiro gerador elétrico e a primeira TV a tubo da região porque Tomé-Açu abrigou a maior colônia japonesa do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. Cresci sob a sombra do regime militar, em um município que parecia existir em função dos japoneses e que agredia o território com a extração de madeira para abrir estradas. Hoje, aquela área é conhecida pelos povos Turiwara, mas na época nós nos reconhecíamos de outra forma.

Há muito anacronismo quando as pessoas olham para o nosso passado. Acham que tudo o que existe hoje existia antigamente. No meu povo, por exemplo, não tínhamos pinturas tradicionais complexas na pele e eu nunca vi meus parentes usarem cocar — o que tenho guardado aqui hoje é apenas por adorno. Nossas pinturas eram basicamente de urucum no pescoço para proteger de carapanãs, que são mosquitos grandes. Nossos hábitos eram a pesca, o uso da rede, a faixa de pano que as mulheres usavam para carregar as crianças e turbantes para proteger a cabeça.

Até mesmo a nossa rotina foi colonizada. Recentemente, eu e o Tiago Guarani estávamos no território e um italiano nos perguntou quem fazia a comida, se era o homem ou a mulher. Eu respondi: "Cara, isso é uma herança do catolicismo". Na nossa cultura tradicional, não existe essa divisão rígida de que a mulher tem que ir para a cozinha, e nós nem tínhamos horários fixos para tomar café, almoçar ou jantar. Nós comemos quando temos fome. O peixe vem da água, é preparado ali mesmo e todos comem juntos. Essa imposição de horários e papéis de gênero vem da educação colonial.

Iakurutu: E como foi o seu deslocamento para a cidade e a sua aproximação com o universo da tecnologia?

Karuãn: Fui muito cedo para a cidade porque as doenças afetaram muita gente no território. A hanseníase me atingiu; eu sou um corpo desses que carregou a lepra e precisou ir para o contexto urbano para conseguir tirar a certidão de nascimento e tomar a vacina. Só consegui a cura definitiva da hanseníase aos 19 anos. Por causa disso, minha infância e juventude foram uma luta constante para tentar concluir o ensino fundamental e o ensino médio.

O corpo indígena na cidade enfrenta a extrema falta de conhecimento e o preconceito dos professores. No ensino fundamental, a experiência foi terrível. Mais tarde, quando eu passava em provas de certificação em tecnologia, como as que chamamos de LP, as pessoas olhavam o meu histórico e diziam: "Você tem um ensino fundamental horrível, como consegue ter um desempenho tão bom nessa área técnica?". São os contrastes da nossa educação.

Ingressei na faculdade muito tarde, aos 27 anos, mas nessa época eu já era uma pessoa tecnológica. Minha relação com a informática começou muito antes de eu ter um computador. Eu comprava revistas e jornais nas bancas da cidade e estudava os circuitos no papel. Naquela época, não tínhamos influenciadores ou heróis indígenas na grande mídia. Quando a imprensa de Belém falava de alguma liderança indígena que lutava contra o governo, sempre o pintavam como um "inimigo do povo" ou usavam seu nome como codinome para assustar as pessoas na cidade. As mulheres urbanas corriam com medo quando viam um corpo indígena chegar, por causa da forma como o Estado nos retratava.

Para aprender eletrônica, fui até uma loja especializada e pedi para o dono me ensinar. Ia todo dia um pouquinho para ficar observando o trabalho dele. Minha trajetória foi construída buscando subsistência para ajudar minha mãe em casa. Eu frequentava casas de famílias de classe média e ficava observando os filhos deles que tinham computadores, lia os livros deles emprestados para absorver o máximo de informação. Só tive meu primeiro computador aos 22 anos, e a primeira coisa que fiz foi abri-lo, quebrar, danificar e consertar sozinho. Ali percebi que o mercado convencional de computadores não atendia à necessidade de quem queria programar de verdade.

Depois, enfrentei um câncer. Minha busca por um emprego formal na área de tecnologia foi motivada por duas necessidades urgentes: conseguir dinheiro para comprar meus próprios equipamentos e ter um plano de saúde corporativo. Pelo SUS, os corpos indígenas passavam, ainda passam, por muitos maltratos, enquanto no plano privado eu podia escolher o médico. Não era a minha cultura, não era o que eu queria originalmente para a minha vida, mas era o caminho para sobreviver. Trabalhei em órgãos públicos, grandes bancos de dados e diversos projetos de mercado. Hoje tenho 47 anos e toda essa bagagem serve para construir ferramentas para os povos originários se adaptarem à internet.

Parte 2: O Etnias e o combate ao racismo algoritmico

Iakurutu: Eu queria que você contasse detalhadamente como o projeto Etnias foi concebido e como foi o processo prático de desenvolvimento dele.

Karuãn: O Etnias levou quatro anos para ser finalizado porque passou por muitos estágios e interrupções. Eu passei muito tempo sendo um indígena colonizado, alguém que aceitava calado as estruturas do mercado para manter o emprego e garantir meu tratamento de saúde. Depois que recebi a notícia de que estava curado do câncer, decidi me mudar para o centro-sul do Brasil para fazer a mente fluir. Foi nesse momento de desdobramento que comecei a compreender o outro lado da colonização e a me entender verdadeiramente como um corpo indígena que conhece sua cultura alimentar, sua medicina tradicional e que fala a língua.

Durante a pandemia, trabalhando em home office, abri uma conta no TikTok e vi muitos parentes jovens surgindo na rede. Mas notei também um volume absurdo de discursos de ódio. Como programador, decidi criar um robô de monitoramento. Durante dois anos, colhi dados de perfis que atacavam indígenas, joguei no Excel e cruzei as informações para ver se essas pessoas operavam redes de perfis fakes em outras plataformas. Mapeei um por um, fiz gráficos detalhados e filtrei por idade e localização. O resultado foi um susto: cerca de 78% dos propagadores de ódio eram não indígenas. Enquanto isso, o indígena que estava no território estava apenas tentando entender como aquela tecnologia funcionava.

Ao encontrar o pensador Ailton Krenak no território dos Guarani, ouvi dele duas falas marcantes que me deram o empurrão final: "Vou lançar e vamos ver o que dá". Hospedei o projeto em um computador antigo debaixo da minha mesa de trabalho. Na primeira semana, uma parente Potiguara achou o projeto e criou sua conta. Em quinze dias, o computador debaixo da mesa não aguentou: já tínhamos 600 usuários conectados.

O processo de escrita do código foi profundamente espiritual, algo difícil de explicar para quem é estritamente da área tecnológica. Eu não conseguia dormir, ficava avoado e acordava de madrugada com as soluções técnicas na cabeça. Anotava os sonhos no papel e recorria aos rezos tradicionais e às orientações da anciã que havia me ajudado na cura do câncer. Eu sentava diante do teclado e traduzia as visões dos sonhos em linhas de programação. Para nós, a espiritualidade é a nossa faculdade; não precisamos pisar em uma instituição de ensino ocidental para exercer a medicina ou o conhecimento sagrado. Como eu vinha do ambiente científico do mercado, demorei um pouco para associar essas duas pontas, mas hoje compreendo perfeitamente esse chamado.

Para finalizar a estrutura, entrei em contato com o Wallace Carvalho, um amigo com quem eu já tinha trabalhado no desenvolvimento de um aplicativo de entregas nos moldes do iFood. Pedi ajuda com algumas partes complexas do código, trocamos referências e, em julho, no Ano Novo Guarani, o sistema estava robusto. Em dezembro, declarei o projeto como pronto. O esforço foi tão intenso que meu corpo adoeceu: tive um pico de pressão que chegou a 22, tive um princípio de derrame e, embora não tenha ficado com coágulos na cabeça, acabei perdendo parte da audição do ouvido esquerdo. O Etnias vai completar seu primeiro ano oficial em setembro. Quando a comunidade atingiu a marca de 3.000 usuários, nós simplesmente derrubamos o servidor comercial e tivemos que pagar multa para a empresa de hospedagem por sobrecarga. Hoje somos 17 mil usuários e migramos para uma infraestrutura totalmente nossa, onde temos o controle absoluto dos dados.

Parte 3: Inteligência Artificial e a luta por autodeterminação e autônomia 

Iakurutu: Como você enxerga o papel e os perigos da Inteligência Artificial em relação à memória e aos saberes dos povos originários?

Karuãn: Eu não era um especialista em Inteligência Artificial, mas comecei a estudar códigos livres e decidi vincular essa tecnologia ao ecossistema do Etnias. A IA não é o problema; o problema real é quem a treina. Os modelos de linguagem atuais apenas replicam o que receberam como base de dados, e tudo o que está inserido nelas sobre o mundo indígena foi colocado por pessoas não indígenas. Se você pedir uma informação sobre nós para essas ferramentas comerciais, elas trarão visões coloniais distorcidas.

O caminho que estou adotando é o oposto da rejeição purista: nós precisamos treinar a inteligência artificial para que ela compreenda as políticas indígenas, a nossa imensa diversidade e as nossas realidades. Quero que o Etnias seja uma base robusta para que futuros pesquisadores e as novas gerações tenham um local confiável de consulta. Pretendemos, inclusive, fechar parcerias com grandes corporações de tecnologia, porque não há mais como caminhar totalmente isolado no ecossistema global.

Atualmente, se você vasculha as redes comerciais, encontra influenciadores ensinando de forma irresponsável rituais de medicina tradicional, receitas de ervas para lavar o cabelo ou métodos anticoncepcionais alternativos. Os algoritmos devoram esses conteúdos em português e transformam dados incorretos em verdades automatizadas. Há um temor real entre os intelectuais e influenciadores indígenas sobre os efeitos colaterais disso. Parentes como o mano Alex Potiguara já escreveram livros fundamentais alertando sobre esses riscos. Nós precisamos do braço tecnológico para combater esse apagamento de forma prática. Se você buscar sobre o meu povo no ecossistema do Google, a resposta será o vazio; nossa língua materna é considerada morta pelos algoritmos. Falam de nós como se fôssemos "defuntos" ou estivéssemos extintos porque alguém, no passado, parou de registrar a nossa existência. É essa base que a IA comercial consome, e é contra isso que lutamos.

Iakurutu: Diante disso, como você concebe a construção de uma soberania digital autêntica e combater o racismo algorítmico?

Karuãn: Eu acho que antes de responder eu preciso te dizer que usar tecnologia não é cultura indígena. Nós nos apropriamos dessas ferramentas ocidentais para conseguir entender o não indígena e ocupar os espaços. Aliás, eu costumo dizer que nós não "ocupamos" lugares, nós "tomamos" lugares. Ocupar é uma presença passiva; se você está na Funai, mas não desenha as diretrizes ou não divide a cadeira de diretor, você é apenas um figurante. Eu penso no futuro, no meu filho e nos filhos dos meus amigos parentes.

Para haver soberania digital real, precisamos romper com a hipocrisia de combater a colonização utilizando o Instagram e o Facebook. Muitas lideranças passam o dia nas redes comerciais atacando os garimpeiros, o governo e lutando por demarcações, mas fazem isso entregando voluntariamente sua geolocalização, seus rostos e seus dados estratégicos para a Meta e para o Google. Uma vez, um rapaz me disse que não entraria no Etnias porque temia pela segurança de seus dados. Perguntei a ele: "Você tem WhatsApp? Tem Instagram? Você entrega a sua vida inteira para as plataformas do inimigo, que nos espremem até sair sangue, mas recusa estar em uma rede construída por corpos indígenas?". Enquanto dependermos de servidores estrangeiros e de infraestruturas alheias, o que temos não é soberania, é escravidão digital. Não há garantia de privacidade nem nesta chamada que estamos realizando agora; se o provedor quiser, ele captura todo o nosso diálogo.

A soberania começa quando criamos nossos próprios servidores. Estamos viabilizando, junto ao território do Jaraguá Guarani, a instalação do primeiro Data Center gerido por indígenas no Brasil. Quando um não indígena quiser pesquisar seriamente sobre os povos originários, ele saberá que existe uma comunidade organizada e buscará as informações dentro das nossas próprias plataformas, e não jogando termos genéricos no Google. Hoje, as pessoas se autodeclaram de determinados povos, como os Tupinambá, simplesmente porque é a única coisa que o mecanismo de busca do Google entrega em abundância. Eu brinco muito com o JP Tupinambá de Olivença sobre esse fenômeno.

A criação de leis, artigos acadêmicos e documentos éticos é um passo louvável e importante, mas a teoria precisa da prática. Eu poderia usar minha articulação política com a ministra Sônia Guajajara, deputados e vereadores para tentar aprovar um projeto estatal de proteção de dados indígenas. Mas a nossa proposta não é depender do Estado. Queremos somar forças com as iniciativas autônomas que os parentes já desenvolvem. Enquanto você depender de verba governamental ou de estruturas corporativas externas, você não terá autonomia.

O Etnias deixou de ser apenas uma rede social e se transformou em uma empresa saudável de tecnologia indígena. Desenvolvemos um ecossistema com braços estratégicos: já temos softwares prontos para a realização de denúncias de invasões territoriais em tempo real e estamos desenhando o projeto de um banco indígena, com moeda própria, para assegurar nossa sustentabilidade financeira. Há também o plano do Tiago Guarani de transformar sua região em um distrito público indígena em São Paulo, equipado com subprefeitura e delegacia geridas por nós, unindo autonomia territorial, financeira e tecnológica.

O Etnias funciona como uma grande fogueira virtual, uma roda de conversa onde parentes de qualquer lugar do planeta podem se escutar e se fortalecer. É também um espaço pedagógico para que o não indígena compreenda as nossas diferenças regionais e desconstrua o racismo estrutural que aprendeu nos tempos de escola, quando os professores nos resumiam ao estereótipo caricato do "Dia do Índio".

Pensamos muito na saúde mental da nossa comunidade. Atualmente, o TikTok movimenta milhões de acessos baseados em engajamento por conflito, enquanto nós somos uma comunidade orgânica menor. Projetamos que, ao alcançarmos a marca de 100 mil usuários, teremos dois caminhos: ou nos renderemos ao capital aceitando aportes financeiros de terceiros, ou faremos uma divisão saudável dos ambientes digitais. Quem quiser a futilidade da timeline comercial, a postagem de fotos superficiais e o ambiente tóxico de confrontos políticos permanentes, continuará nas grandes plataformas. No Etnias, manteremos um refúgio saudável para a circulação de saberes. Não permitirei que um terceiro fale em nome do povo Terena ou Tupinambá; cada povo deve ingressar na plataforma e assumir a autoria da sua própria narrativa. Quando os parentes compreenderem o valor revolucionário de gerir a própria infraestrutura, começaremos a mudar os rumos da nossa história no ambiente digital.

Iakurutu: Guerreiro, quero agradecer muito pela sua disponibilidade, pelo seu tempo, pelo seu saber, seu conhecimento, seu ânimo. É muito bom falar com você e ter te encontrado. Espero que a gente se encontre mais vezes, inclusive pessoalmente. Espero que nossos trabalhos cresçam muito e possam crescer juntos também.

 

Comentários
Karuan Tataenday 4 d

Obrigado katu'ti pela entrevista