Território é lugar de onde flui a nutrição, a ciência e a percepção de mundo; é eixo e fonte da existência de um povo. Quando esse universo se estrutura em torno de um rio, nasce uma relação singular com a vida, diferente de outros povos cujo núcleo pode estar na terra, na floresta ou em outro referencial. Somos todos parentes, mas para os povos cuja centralidade está nas águas, o viver assume outra cadência. Esses parentes de Pindó Mar’anhãn carregam em seus corpos veias Karuanas, sentem como os rios, pensam como os rios e, como eles, se curam ou adoecem.
Considerando o rio como ventre de nutrição, compreendemos sua importância para além da pesca, ou seja, está tudo que a envolve. Essa importância fica evidente nos costumes diante dos ciclos sazonais de cheias e vazantes, nas formas e rituais de preparo e consumo do alimento, nas relações comunitárias que nutrem a saúde individual e coletiva.
Considerando o rio como ventre de ciência, revelam-se sistemas de conhecimento construídos a partir da integração entre indivíduo, natureza e tempo. Práticas técnicas, sociais e materiais se desenvolvem de forma adaptativa e contínua, garantindo o bem viver dessas nações. É uma ciência cotidiana, garantida pela observação atenta, pela experiência e pela escuta ativa desse território líquido.
Considerando o rio como ventre de sabedoria ancestral, articulamos os saberes já referidos, para expressar a riqueza que sobressalta através da cosmopercepção desses povos. Da água e da argila nascem curas, das Karuanas e dos demais encantados, a força que orienta o existir. Essa sabedoria se manifesta nos gestos, nas metáforas, no modo de olhar o rio e, a partir dele, ler o mundo.
Ao percorrermos essa corrente de saberes sobre nossos parentes, torna-se impossível ignorar a urgência da responsabilidade coletiva. Como a Cobra Coral, que delimita, orienta e se impõe, é chegada a hora de reposicionar e reconhecer as narrativas dos povos Karuanas. Para que a coexistência seja a bússola para um futuro que se pretenda, de fato, possível.
POR: Icy Porã Katú-awá Coroado
COM a devida referência e gratidão ao fotógrafo Renato Soares.