COP30 e o Clima que Temos
As mudanças climáticas sempre foram pautas-chave nas Cúpulas do Clima, desde a primeira em 1995, em Berlim, até a edição que está acontecendo no Pará. Mas nessas três décadas, a realidade tem sido mais assertiva que as negociações: ondas de calor, tornados, incêndios e enchentes se tornaram parte do cotidiano global, evidenciando que os resultados concretos ainda ficam muito aquém do necessário. Essa distância entre promessa e prática também se revela na evolução do discurso.
Nas primeiras Conferências, o aquecimento global era visto como algo futuro, as pautas abordavam mensuração e redução dos gases poluentes, enquanto países tentavam negociar metas sobre suas emissões. Nesse curto espaço de tempo, com a escalada dos eventos extremos, o eixo mudou, o foco passou a ser adaptação, enfrentamento e tecnologias para conviver com um novo normal já em curso.
A partir de 2015, adaptação e mitigação ganham o mesmo peso, surge o conceito de resiliência climática. Deslocando os debates da reação para o planejamento estratégico, incluindo temas como adaptação, segurança alimentar, sistemas de alerta e infraestrutura capaz de suportar riscos crescentes.
Depois dos anos pandêmicos, a percepção global sobre a crise já é concreta para a maioria da população. Assim, as COP’s começam a tratar resiliência climática como questão de justiça social, reconhecendo quem polui mais, quem sofre mais e quem deve subsidiar esses danos. Então, os nossos saberes tradicionais ganham visibilidade na discussão, não apenas como referência cultural, mas como tecnologia ancestral de sobrevivência em cenários hostis.
Na COP30, o debate em torno da resiliência climática ganha força. Há o esforço para a criação de fundos climáticos específicos, assegurando que quem polui mais, dê suporte econômico e financeiro para quem esteja mais vulnerável. Conforme a afirmação de Simon Stiell, Secretário Executivo da Convenção, Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC): “A cada dólar investido em prevenção, economizamos sete em perdas e reconstrução”.
Revisitando o histórico das COPs, fica difícil concluir se estamos conseguindo “adiar um pouco o fim do mundo”, parafraseando o título do livro do parente Ailton Krenak. Conferências, discursos e acordos são essenciais, mas insuficientes se não se traduzirem em ação concreta, coletiva e individual.
O desafio agora é desconstruir a ideia contemporânea de progresso que nos empurra ao colapso e enfrentar os pilares de um capitalismo extrativista e exploratório. Somente retornando à nossa simplicidade originária, àquela que nos sustentou por tantas gerações, poderemos imaginar um futuro possível.
POR: Icy Porã Katú-awá Coroado