“O Dia em que o Sol Chorou sobre Abya Yala”
Em 12 luas de outubro,
do ano em que o ferro cruzou o mar,
um homem de olhos vazios
tocou o ventre sagrado de Abya Yala,
sem pedir licença,
sem ouvir o canto dos ventos.
Vieram com cruzes e espadas,
falando em reinos e riquezas,
e disseram ter “descoberto”
aquilo que sempre foi vida.
Mas nós, povos antigos,
já existíamos desde o primeiro raio de sol
que beijou a terra.
Nossos toantes calaram por um tempo,
as fogueiras tremeram no medo,
as mães esconderam seus filhos
nas raízes das montanhas,
e o sangue dos povos Taino, Ymboré,
Maya, Inca e Guarani e mil e tantos outros
tingiu de vermelho o mar.
O que chamaram de “América”
era Abya Yala,
terra madura, viva, falante.
Aqui o espírito caminhava livre,
a água tinha nome,
a floresta tinha alma,
e cada pedra guardava um ancestral.
Mas o invasor não viu alma
viu ouro.
Não ouviu canto, ouviu ruído.
E no lugar do enquanto ofertavamosmos abraços, eles
trouxe corrente e pólvora.
Oh, Abya Yala,
mãe rasgada e ferida,
quantas línguas calaram,
quantos nomes foram roubados,
quantos sonhos viraram cinza
no altar religioso da cobiça.
Hoje, eu, filho da serpente e da onça que reverências os antigos
erguo minha voz como rezo: chamo a todos parentes e hermanos para retomar, afirmar e dizer
que a memória não adormeça,
que o vento conte aos nossos netos
que o mundo começou aqui,
antes do aço, antes da cruz,
antes da mentira do “descobrimento”.
Porque o que eles chamaram de conquista
foi invasão,
e o que chamaram de progresso
foi morte.
Mas a vida,
essa teimosa guardiã,
renasce nas aldeias,
nos cantos, nas ervas,
no peito dos que lembram, e assim se amplia nossa retomada.
E enquanto houver quem chame por Abya Yala, quem lembre do nome antigo Pindó Mar'anhän,
e seus encantados, seus karuãnas ancestral seguirá de pé,
curando a ferida do tempo
com a força da palavra,
com o sopro da lembrança,
com o fogo da verdade.
Awêry itsë Niamîssū.
🐍🙇🏾♂️🐆
Karuan Tataenday
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Ingorar Hã hã hãe
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