“Não somos poucos, somos silenciados”

O Estado costuma dizer que há poucos indígenas.
Mas o que há, na verdade, é pouca escuta e muito apagamento.
Os censos contam corpos, não histórias.
Os formulários medem territórios, não memórias.
E quando as retomadas florescem nas cidades, nos becos, nas periferias —
o governo fecha os olhos e diz: “aqui não há indígenas”.
Mas nós estamos aqui.
Nos rostos que voltam a pintar, nas línguas que voltam a nascer,
nos nomes que voltam a ser ditos com orgulho.
Somos os que retornam depois de séculos de silêncio forçado.
Os que juntam fragmentos de memória pra reconstruir uma nação dentro de outra.
Dizem que somos poucos.
Mas o que é pouco diante de um povo que nunca deixou de existir?
Poucos são os que ainda acreditam no apagamento.
Poucos são os que pensam que número define existência.
Nós somos muitos — espalhados, retomando, reerguendo o que tentaram enterrar.
Cada corpo indígena que se reconhece é uma retomada.
Cada voz que se levanta é uma aldeia que renasce.
O problema não é termos poucos indígenas.
O problema é o Estado enxergar pouco, ouvir pouco e reconhecer menos ainda.
Mas nós seguimos.
Porque o que o Estado chama de “poucos”, nós chamamos de povo em retomada.
Karuãn Teteneade