Essa publicação resulta de pelo menos uma década de pesquisas colaborativas no rio Tiquié, situado no noroeste amazônico, região da fronteira do Brasil com a Colômbia. O foco principal dessa investigação são os fenômenos cíclicos, aqueles que se repetem de ano a ano, não exatamente da mesma maneira,
intensidade ou período, mas variando de muitas formas dentro de um certo espectro. Esse fluxo de recorrên- cias e variações no tempo reflete as estreitas interações entre os povos indígenas e seu ambiente, não só pelo manejo das roças, da pesca, dos frutos... mas também das doenças, da fertilidade, das relações interespecífi- cas. Os ciclos de vida revelam o manejo do mundo.
Se, em linhas gerais, as conexões entre o manejo indígena e os processos ambientais são evidentes, o objetivo aqui é entender, em seus detalhes e minúcias, os encadeamentos entre fenômenos, as descontinui- dades discerníveis, segundo o ponto de vista dos conhecedores indígenas. O meio que está sendo privilegia- do são as observações e registros cotidianos de moradores de comunidades, considerando diversos temas (peixes, plantas, agricultura, rituais, doenças, dentre outros). São os pesquisadores indígenas que, junto com conhecedores mais velhos e assessores-pesquisadores do Instituto Socioambiental, processam e analisam esses dados colaborativamente.
Essa pesquisa parte do princípio de que os povos indígenas são os que melhor conhecem a Amazônia, onde estão presentes há milênios e que ajudaram a produzir e reproduzir. Diversos ecossistemas e paisagens amazônicos são produtos de interações persistentes entre as sociedades indígenas e seu meio ambiente. Mais que isso, em suas comunidades, os moradores vivem no dia a dia manejando seu ambiente nas práticas da agricultura, da pesca, da coleta de frutos, dentre outras atividades. Esses conhecimentos práticos não cir- culavam por escrito, mas através da oralidade, de geração em geração. Hoje em dia estão sendo retomados e reelaborados em ambientes de pesquisa intercultural, como é o caso aqui. Outra premissa é, justamente, a de que os conhecimentos indígenas podem se expandir na interface com outros conhecimentos. Essa inter- face, neste caso, é operada por pesquisadores indígenas (in)formados. Esse diálogo de conhecimentos gera subsídios para a governança ambiental e o desenvolvimento sustentável dos territórios indígenas e mosaicos ou corredores de áreas protegidas em que estão inseridos. O principal desafio é fortalecer os conhecimentos indígenas, em suas formas próprias de circulação e validação, no contexto da comunicação e conexão cres- centes com a sociedade global. Espaços de produção colaborativa (intercultural) de conhecimentos reque- rem mediações e condições para que essas relações sejam simétricas e complementares.
Essa pesquisa surgiu no contexto de iniciativas de manejo ambiental e gestão territorial, bem como de fortalecimento dos conhecimentos indígenas, cultivadas no âmbito de relações entre as comunidades, suas associações e assessorias. Essas iniciativas estão informadas na noção indígena (dos povos Tukano) de “mane- jo do mundo” – que são modos indígenas de acompanhar e interagir com os ciclos de vida, seja no trabalho, na vivência, na fala, no tratamento xamânico. 👇🏻👇🏻
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L Wallimann
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