Marxismo e luta indígena para não-indígenas

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Compartilho aqui um texto escrito por um comunista não indígena, que tem como público alvo outros comunistas não indígenas e busca chamar a atenção para a luta dos povos originários. Estou pois se estou falando besteira, acho que é o melhor lugar que conheço para ser corrigido.

Boa noite, eu pensei muito se eu compartilhava esse texto ou não, mas optei por compartilhar. Eu sou anti-capitalista (comunista por definição) e tenho compilado algumas reflexões sobre alguns temas que ao longo dos últimos meses/anos eu tenho estudado e refletido sobre (o documento completo pode ser lido aqui).

Minha "formação" intelectual, é comunista e mais especificamente marxista. Eu pesquiso sobre o capitalismo no meu doutorado sob a perspectiva da física social (um artigo pode ser lido aqui), e contribuo com um coletivo sob esta perspectiva comunista. 

Infelizmente, minha formação política até aqui não passou por pensadores indígenas, assim como eu mesmo não sou indígena. Porém, recentemente eu tive contato com a luta indígena através de notícias, livros, documentários, criadores de conteúdo, políticos, etc ... E isso me atingiu profundamente. Desde então eu tenho buscado pensar como eu posso utilizar os locais que ocupo, e mobilizar os conhecimentos que possuo, para dar visibilidade à esta luta.

Para isso eu busquei construir um texto explorando a importância da luta dos povos originários, a partir da visão de alguém que não é indígena (minha) e que fala principalmente para alguém que também não é indígena (os lugares que ocupo). Eu sei que há alguns riscos nesta atividade. O ideal seria que indígenas ocupassem os mesmos espaços que eu e falassem por si. Também sei que me falta muito estudo sob o tema, e que isto pode me levar a cometer simplificações excessivas e/ou interpretar de forma errada aquilo que quero expor.

São riscos que corro. Mas estou tentando construir essa ponte entre estes dois ambientes que ocupo. Também estou ciente que quando eu tento aproximar a luta indígena de uma teoria política externa, eu corro o risco de deformar um para que se encaixar no outro. Eu estou ativamente buscando evitar isso. Também estou tentando evitar transmitir a ideia de que de alguma forma estou buscando validar a luta indígena através de uma teoria marxista. Não sei se fui feliz no meu resultado, mas estou tentando.

A minha motivação é que após estudar por muito tempo marxismo, algo que podemos classificar como uma teoria política principalmente de análise e transformação da sociedade que visa superar o capitalismo, eu cheguei a conclusão que a luta anticapitalista no Brasil, necessariamente passa pela defesa dos povos originários. E não digo isso como se a luta indígena fosse ser um complemento do movimento comunista, para mim, hoje, me parece que a luta indígena manifesta na prática aquilo que as teorias estudam e propõem. A resistência dos povos originários, o conflito entre os valores defendidos pelo capitalismo e os valores defendidos pela luta indígena expõe uma das contradições mais visíveis em nossa sociedade atual. Digo isso sem esquecer que os povos originários não são homogêneos. 

Mas é por tudo isso, que como comunista e anticapitalista, eu gostaria que estes movimentos no qual faço parte olhassem para a luta indígena com mais atenção. Busco convencê-los de que não há como ser anticapitalista no Brasil sem ser um aliado da luta indígena. É preciso se unir para vencer o individualismo promovido pelo capitalismo.

E claro, para os indígenas que venham a ver no comunismo e no marxismo uma ferramenta política útil, gostaria que o marxismo pudesse ser absorvido criticamente pela luta indígena da melhor forma possível.

É nesse espírito, que eu redigi um capítulo buscando discutir a luta indígena. Eu estou reproduzindo este texto com algumas adaptações, pois originalmente eu assumo que a pessoa leu todo o resto do documento. Também busquei realizar melhorias. Deixo abaixo o atual para qualquer crítica que seja pertinente.

Enfim, reproduzo abaixo o texto:

 


 

 Lendo “A Terra dos Mil Povos” (Kaká Werá Jecupé) e “Futuro Ancestral” (Ailton Krenak), eu percebi que o Brasil possui uma contracultura anticapitalista com raízes materiais que antecedem ao próprio capitalismo e eu preciso falar disto. Eu defendo que a principal tarefa atual da militância comunista no Brasil é a disputa pela consciência política dos trabalhadores. E mais do que isso, essa disputa passa pela necessidade da defesa de uma contracultura anticapitalista.

E não precisamos inventar uma cultura nova. O que podemos e devemos é reconhecer uma luta que se desenvolve em nosso solo desde que o colonialismo chegou por aqui.

As culturas indígenas, em toda sua diversidade, já são culturas anti-hegemônicas que têm resistido e se desenvolvido ao longo de séculos de capitalismo. Com o grande diferencial de que estas culturas não são uma cultura artificial importada do estrangeiro sem raízes, são culturas ancestrais. Possuem uma longa história e uma sólida base material.

Nenhuma cultura pode se desenvolver de fato sem raízes. É por isso, que nós, como comunistas, devemos reconhecer e dar a devida importância ao fato de que a dimensão material das culturas dos povos originários possuírem raízes firmes em nossa terra. Não é sem razão que a luta indígena adota o seguinte lema: “A nossa luta é uma luta ancestral”.

Assim sendo, não precisamos “partir do zero” para construir uma cultura anticapitalista no Brasil, e muito menos devemos importar uma cultura estrangeira. Devemos (se você não é indígena como eu) nos aliar à luta dos povos originários.

Já faz um tempo que eu carrego a ideia de que nosso imaginário foi colonizado. Defendo que uma das principais violências do capitalismo foi que nos tiraram a capacidade de sequer imaginar um mundo melhor. Esta ideia pode ser lida também em “Futuro Ancestral”, onde Ailton Krenak a expressa da seguinte forma:

As pessoas acham mais fácil acabar com o mundo do que acabar com o capitalismo.

(Ailton Krenak em Futuro Ancestral)

Para lidar com este problema, Ailton Krenak propôs então que “temos que reflorestar nosso imaginário”. Em outras palavras, é preciso combater esta concepção de mundo capitalista com uma outra concepção de mundo anticapitalista. Um imaginário reflorestado para combater um imaginário colonizado.

Isto ressoa com tudo que tenho refletido e discutido. A necessidade de fomentar uma contracultura para disputar a cultura hegemônica, passa pela necessidade de defender os povos originários.

De fato, todo marxista sempre fala de que o marxismo não é uma fórmula para ser mecanicamente copiada de um lugar para outro. Sabe que é uma teoria que se desenvolve de forma diferente em diferentes contextos. Mas me parece que ainda encontramos dificuldades para saber exatamente como esse marxismo tipicamente brasileiro deve ser desenvolvido. Hoje, eu tenho que isso passa necessariamente pela da luta índigena;

Os povos originários compõem um movimento de resistência ao capitalismo anterior ao próprio marxismo. Poderíamos pensar na questão de forma superficial, e concluir que deveríamos nos inspirar nesta luta. Mas eu acredito que a união deve ser mais profunda. Não basta apenas nos inspirar, devemos aprender e nos aliar a este movimento, devemos ouvir e dar voz. Me arriscando, mas tendo a pensar que um marxismo adaptado a nossa cultura é um marxismo que respeite e seja absorvido pela luta indígena.

Evidentemente a luta indígena é diversa. As nações indígenas são diversas. Não devemos esquecer disso em momento nenhum. Mas é preciso ser enfático que existe este movimento anticapitalista na luta indígena. Recorrendo novamente a Ailton Krenak, respeitado e importante porta-voz da causa indígena, ele também denuncia o capitalismo com a seguinte declaração:

O cancro do capitalismo só admite propriedade privada e é incompatível com qualquer outra perspectiva de uso coletivo da terra”.

(Ailton Krenak em Futuro Ancestral)

O próprio nascimento da Aliança dos Povos da Floresta é descrito como uma insurgência para eliminar a figura do patrão. Estamos diante de um discurso anticapitalista por excelência, que se nega a fazer coro com qualquer discurso colonial. A lógica capitalista que faz com que as cidades sejam invadidas pela indústria e pela produção transformando a lógica da vida coletiva em vida privada é denunciada ao longo de todo “Futuro Ancestral”.

Um assunto que eu sempre busco discutir, que é a linguagem linguagem, também é abordado por Krenak, Krenak diz ver nela um fator determinante nas relações sociais. Se juntando a nossa denúncia contra a mercadorização da vida promovida pelo capitalismo, em “A Queda do Céu” (Davi Kopenawa Yanomami) os brancos são chamados de “povo da mercadoria”.

O que eu estou tentando realizar aqui é trazer o reconhecimento desta luta para o interior do movimento comunista. Para que o movimento comunista por sua vez busque a luta indígena. Se, como eu defendo, o primeiro campo de batalha contra o capitalismo é cultural, historicamente os povos originários estão entre os primeiros a liderar esta frente de batalha. E nós temos muito a aprender com eles.

Falando sobre o marxismo, especialmente em sua formulação mais tradicional, é conhecido que ele traz uma concepção de mudo própria. Mas os povos originários já trazem em si suas próprias concepções de mundo. Ainda que ambas sejam anti capitalistas, para além disso, até que ponto elas convergem?

Mesmo admitindo a existência de uma convergência quanto a postura anticapitalista não implica que exista uma convergência geral entre a luta indígena e o movimento marxista. Devo me aprofundar nisso futuramente, mas eu gostaria de esboçar uma discussão.

Vamos começar relembrando a típica organização do marxismo em três componentes: política (socialismo), econômica e filosófica. Podemos dizer que até aqui apresentamos, ainda que grosseiramente, uma convergência no eixo político. Pelo menos no que tange ao objetivo de superação do capitalismo

Vamos agora comentar os dois eixos restantes. Eles nos ajudarão a entender melhor as convergências e divergências entre a luta indígena e o movimento marxista. A questão principal é: Admitindo que ambos queiram superar o capitalismo, ambos querem construir a mesma sociedade pós-capitalista?

Economia: entre os dois eixos que restam, acredito que este é o mais simples, por isso opto por começar por ele. Tendo em mente que a economia comunista visa a superação do capitalismo, e que a luta indígena expressa por pensadores como Ailton Krenak é também anticapitalista, temos um sinal favorável de convergência neste aspecto.

A proposta de modo de produção comunista visa colocar diretamente nas mãos dos trabalhadores todo o poder político de gerenciar a produção e a distribuição destes bens produzidos. Assim, os povos originários, em uma sociedade comunista, por definição, devem possuir completa autonomia para decidir como gerir a produção, a distribuição e sua vida como um todo.

Acredito ser um fator determinante de convergência entre as lutas, a reorientação da finalidade da produção. A produção no capitalismo visa a maximização do lucro acima de qualquer coisa. Já o ideal comunista de produção é a maximização do bem estar dos membros da sociedade. Esta mudança de foco na produção me parece alinhar claramente as ideias comunistas à luta indígena.

Pode existir um conflito com uma visão marxista 'industrial' que já foi popular, mas que deve ser denunciada como inadequada. Esta concepção vulgar de marxismo se aproxima de um certo modo de desenvolvimentismo, vê como necessidade que a sociedade persiga um desenvolvimento desenfreado das suas indústrias acima de qualquer coisa.

Esta é uma concepção inspirada em uma espécie de visão de desenvolvimento linear e hierárquica da história da humanidade. Onde quanto mais e maiores as indústrias mais desenvolvida estaria a sociedade.

Apesar de ter gozado de certa popularidade, é preciso ter em mente que esta não é uma posição inerente ao comunismo. Ela vem sendo combatida desde o próprio Marx. Quando acusado de que estaria defendendo uma “inevitabilidade histórica” do desenvolvimento das formas de produção, Marx afirmou ter sido mal compreendido e que o curso de desenvolvimento descrito em “O Capital” não é uma afirmação sobre uma inevitabilidade histórica universal, mas apenas a descrição da gênese da produção capitalista no contexto dos países da Europa Ocidental.

A “inevitabilidade histórica” desse curso está, portanto, expressamente restrita aos países da Europa Ocidental.

(Karl Marx em carta para Zasulich de 08/03/1881)

O que é inerente ao comunismo é uma defesa da total autonomia para que os trabalhadores tenham controle sobre como gerir sua vida. Uma marxista atual que se opõe a esta perspectiva de desenvolvimento inevitável do capitalismo é Ellen Wood. Criticando argumentos que naturalizam o capitalismo e a indústria como resultados inevitáveis da "natureza humana", ela também escreve:

Mais particularmente, esses argumentos tendem a reforçar a visão profundamente eurocêntrica de que a ausência do capitalismo, é, de algum modo, uma falha histórica (linha de pensamento que é especialmente contraproducente para os críticos do capitalismo).

(A origem do capitalismo)

Ainda sobre questões econômicas, devemos citar a abolição do dinheiro. Característica também inerente do comunismo que combinado então com o controle da produção nas mãos dos trabalhadores, cria um cenário bastante flexível quanto a sociedade pós-capitalista. Contrariando essa concepção de exaltação do trabalho industrial e da urbanização desenfreada da vida, podemos recorrer novamente ao próprio Marx:

Logo que o trabalho começa a ser distribuído [no capitalismo], cada um passa a ter um campo de atividade exclusivo e determinado, que lhe é imposto e ao qual não pode escapar; o indivíduo é caçador, pescador, pastor ou crítico crítico, e assim deve permanecer se não quiser perder seu meio de vida – ao passo que, na sociedade comunista, onde cada um não tem um campo de atividade exclusivo, mas pode aperfeiçoar-se em todos os ramos que lhe agradam, a sociedade regula a produção geral e me confere, assim, a possibilidade de hoje fazer isto, amanhã aquilo, de caçar pela manhã, pescar à tarde, à noite dedicar-me à criação de gado, criticar após o jantar, exatamente de acordo com a minha vontade, sem que eu jamais me torne caçador, pescador, pastor ou crítico.

(Karl Marx em Ideologia Alemã)

Concepção de mundo: Este é certamente o eixo onde o conflito surge diretamente. O marxismo historicamente tem se mostrado hostil à religião e se portado como um defensor do ateísmo. Ser também uma concepção de mundo é a principal característica do marxismo que tem se mostrado difícil de adequar a diferentes culturas não-europeias sem recorrer a um novo tipo de colonialismo. E é portanto, o tópico mais sensível e polêmico.

Há diversos exemplos de pensadores que não sendo europeus, apesar de verem o marxismo interessante sob certos aspectos, não conseguem se sentir representados pelo mesmo devido a aspectos da sua própria cultura e concepção de mundo.

Podemos citar por exemplo Fausto Reinaga na Bolívia ou Ali Shariati no Irã. Ambos vão descrever o marxismo como portador de uma concepção de mundo eurocêntrica, de forma que sua imposição nas culturas locais acarretaria em uma nova espécie de colonialismo.

Eu não estou aqui para contrariar nenhum deles, pelo contrário, o que estou propondo é que a solução para este impasse tenha por foco não a adequação da cultura dos povos originários à uma teoria europeia, mas que esta concepção de mundo muito restrita e simplista que historicamente tem sido defendida por alguns marxistas, seja uma abordagem inadequada tal qual a abordagem "desenvolvimentista" discutida anteriormente no plano econômico.

O fato do marxismo tradicionalmente ser visto como necessariamente ateu, me parece nascer de uma leitura simplista tanto do próprio materialismo defendido pelo marxismo, quanto de outras visões de mundo. É importante destacar que o materialismo no marxismo não significa algo tão simples como uma afirmação do tipo de que “só existe matéria”. Significa sobretudo o reconhecimento de que o mundo existe objetivamente e se organiza segundo leis impessoais e naturais. É a partir desse reconhecimento que o marxismo busca analisar de forma mais rigorosa a dinâmica concreta do capitalismo.

Evidentemente isto ainda é polêmico, mas se afasta da leitura mais simplista da questão, de uma simples defesa irrestrita de um ateísmo inconsequente. Possíveis conflitos entre o marxismo e uma concepção de mundo qualquer, deve ser analisada ponto a ponto para entender de forma mais criteriosa exatamente qual é este conflito e como podemos lidar com ele.

De toda forma, é preciso evitar uma leitura simplista de materialismo. E vale dizer, mesmo no marxismo mais tradicional, esta questão já figurava como uma questão secundária. Falando sobre o contexto cristão da Rússia, Lênin disse:

A unidade desta luta realmente revolucionária da classe oprimida pela criação do paraíso na terra é mais importante para nós do que a unidade de opiniões dos proletários sobre o paraíso no céu.

(Lênin em O Socialismo e a Religião)

O que eu busco defender é a ideia de que o marxismo pode ser absorvido pela luta indígena sem adotar um tom paternalista ou condescendente. Meu objetivo com este texto, é incentivar o movimento marxista brasileiro de forma que ele consiga se transformar em uma ferramenta de transformação social empunhada também pelos povos originários.

Se eu for ser acusado de algo, espero que me acusem de deformar o marxismo, mas não por deformar a luta dos povos originários para caber em uma versão eurocêntrica da teoria marxista. Evidentemente eu não tenho uma resposta final. Isto só pode ser desenvolvido de forma coletiva.

O que trago nada mais é que uma simples proposta de reflexão sujeita ao escrutínio público. Ainda que eu não seja indígena, para concluir gostaria de me dar a liberdade de reproduzir algumas palavras famosas de um indígena de minha terra:

Esta terra tem dono!

Djekupé A Djú

Comentários
Karuan Tataenday 16 C

Obrigado pela pastilha gostei do texto.